Gonçalves Lêdo

Joaquim Gonçalves Lêdo
11.12.1781 – 19.05.1847

Reverenciando a memória de um dos maiores vultos do episódio da Independência do Brasil, e devotado precursor da Maçonaria em nosso País. Façamos justiça, ainda que tardia, aos feitos desse brasileiro ilustre, tão pouco lembrado pelos historiadores.

JOAQUIM GONÇALVES LÊDO: jornalista, orador e político brasileiro. Filho do comerciante Antonio Gonçalves Ledo e D. Maria dos Reis Ledo, nascido no Rio de Janeiro no dia 11 de dezembro de 1781.

Em 1795 seguiu para Portugal a fim de ultimar os estudos de humanidades aqui iniciados; ingressou no Curso de Jurisprudência da Universidade de Coimbra. Com a morte de seu pai, teve de deixar os estudos, retornando ao Brasil para administrar os bens e propriedades da família.

Em 15 de novembro de 1815, instala-se no Rio de Janeiro a Loja Maçônica “Comércio e Artes”, da qual Gonçalves Lêdo foi membro ativo e seu Venerável Mestre. A 30 de março de 1818, um decreto de D. João VI proibindo a existência de Sociedades Secretas, põe fim às atividades da Loja “Comércio e Artes”. Gonçalves Lêdo funda e dirige o “Clube Recreativo e Cultural da Guarda Velha”, no qual se conspirava a favor da Independência brasileira.

Com o retorno de D. João VI a Portugal, a regência do Reino do Brasil foi confiada a D. Pedro, assessorado por um grupo de Ministros portugueses. Num cenário político conturbado, a Loja “Comércio e Artes”, que trabalhava clandestinamente, foi reinstalada, tendo como Venerável Mestre Joaquim Gonçalves Ledo, que adotara o nome simbólico Irmão Diderot.

Em 15 de setembro de 1821, circula no Rio de Janeiro o primeiro número do “Revérbero Constitucional Fluminence”, periódico quinzenal criado e dirigido por Gonçalves Lêdo e pelo Padre Januário da Cunha Barbosa. Engajado na campanha de libertação, Lêdo produziu contundentes proclamações e ardorosos manifestos aos brasileiros, culminando com a célebre declaração do “Fico”, proferida pelo Príncipe Regente.

Sendo a Maçonaria uma Instituição milenar, onde se abrigam homens livres e de bons costumes, até pelo caráter de seu absoluto sigilo sobre o que se discute em Loja, era muito natural que acorressem para o seu seio, todos os que de alguma forma concorriam para a urdidura dos destinos de nossa Pátria. Em tais circunstâncias, é que por iniciativa de Gonçalves Lêdo, José Bonifácio e outros ilustres Maçons, D. Pedro foi iniciado na Maçonaria a 02 de agosto de 1822, adotando o nome simbólico de Irmão Guatimosim.

Proclamada a Independência do Brasil a 07 de setembro de 1822, Gonçalves Lêdo que havia sido eleito Deputado à Assembléia Constituinte pela Província do Rio de Janeiro a 22 de setembro de 1822, não tomou posse no cargo devido à perseguição a ele movida por José Bonifácio. Não se sabe ao certo se por razões de ciúmes ou divergências ideológicas: enquanto José Bonifácio era monarquista,Gonçalves Lêdo alimentava ideais republicanos, embora concordasse plenamente com a monarquia constitucional, considerando-a a melhor solução para o Brasil naquele momento. Tanto D. Pedro quanto José Bonifácio tendiam para a monarquia absoluta. Parece que o crime maior de Gonçalves Lêdo foi ser intransigentemente constitucionalista.

Por sugestão de Lêdo e para o desagrado de José Bonifácio, que se viu destituído do cargo, D. Pedro é aclamado Grão-Mestre do Grande Oriente Brasiliense a 04 de outubro de 1822.

Em 12 de outubro de 1822, D. Pedro é coroado Imperador e Defensor Perpétuo do Brasil. Dois dias depois, o Imperador chama Lêdo ao Palácio para oferecer-lhe o título de Marquês da Praia Grande, honraria que ele recusa.

Os partidários de José Bonifácio promoveram sua volta ao poder, intensificando a perseguição aos Maçons do Grande Oriente. Informado dos riscos que corria, Lêdo refugia-se numa fazenda em São Gonçalo, de onde escreve ao Imperador em defesa dos Maçons, tentando desfazer a trama preparada por José Bonifácio. Em novembro de 1822, com o auxílio do Cônsul da Suécia, o Maçom Lourenço Westine, embarca em exílio para Buenos Aires.

A devassa perpetrada contra Lêdo e seus amigos por José Bonifácio, acaba tendo efeito contrário, e a 15 de julho de 1823, os acusados são inocentados. Sentindo-se desprestigiado, Bonifácio e seu irmão Martim Francisco, demitem-se de seus cargos no Ministério. Tendo os Andradas transformado a Assembléia Legislativa em palco de agitação das massas, o Imperador resolve dissolvê-la em 12 de novembro de 1823, mandando prender José Bonifácio, seus irmãos e amigos. Nesta mesma data os Andradas partem em exílio para a França.

No dia 21 de novembro de 1823, Lêdo chega ao Rio de Janeiro, voltando de seu exílio em Bueno Aires. Em 17 de fevereiro de 1824, Gonçalves Lêdo é agraciado pelo Imperador com a Dignitária da Ordem do Cruzeiro do Sul, que ele uma vez mais recusa, do mesmo modo como declinara do convite para ser Ministro de D. Pedro I por duas vezes, causando indignação por parte do Imperador.

A 23 de julho de 1829, José Bonifácio retorna do seu exílio na França e a 23 de novembro de 1831 é reinstalado o Grande Oriente do Brasil com José Bonifácio como Grão-Mestre. Relevando as ofensas recebidas, Lêdo ocupa a função de 1º Grande Vigilante. Em 1832 Gonçalves Lêdo redige e José Bonifácio assina o “Manifesto a todos os Maçons do Mundo”, onde se lê: “A Voz da política nunca mais soará no recinto dos nossos Templos, nem o bafo impuro dos partidos e das facções manchará a pureza de nossas colunas”.

Em 1835, acompanhado de sua esposa D. Ana Carolina de Araújo, com quem houvera se casado em 1833, Lêdo afasta-se da Maçonaria e da política, refugiando-se na Fazenda Sumidouro (herança da família), no Município de Santo Antônio de Sá (mais tarde incorporado ao Município de Itaboraí) no Estado do Rio de Janeiro, onde falece no dia 19 de maio de 1847, aos 66 anos de idade.

Íntegro, intransigente com seus ideais e princípios, Gonçalves Lêdo se oculta por detrás de uma modéstia absoluta, renunciando a cargos, títulos e honrarias. Avesso ao foco dos refletores apesar de carioca, cultivava a mineirice de “trabalhar em silêncio”, nos bastidores, preparando o espetáculo para que outros recebessem os aplausos. Precursor da Maçonaria no Brasil, e um dos mais destacados artífices de nossa Independência, por ser destituído de vaidade própria dos mortais, deixa de ter o merecido reconhecimento da Nação por tudo de grandioso que logrou realizar em prol da nossa Pátria. É oportuno repetirmos as palavras do Maçom, General Luiz Pereira da Nóbrega de Souza Coutinho, Ministro da Guerra em 1822: “Lêdo foi, incontestavelmente, o vulto primacial nas ocorrências que ocasionaram a emancipação política do País”. “O chefe supremo, ou seja, a alma de todo o movimento revolucionário foi o grande fluminense Joaquim Gonçalves Lêdo”.

O Brasil continua devendo o resgate da memória de Gonçalves Lêdo, e o justo reconhecimento aos feitos desse destemido patriota.

Bibliografia:
Nicola Aslan – Pequenas Biografias de Grandes Maçons Brasileiros – Editora Maçônica – 1973
Prof. A. C. Barbosa – Dicionário Biográfico para Pesquisas (Vol. II) – Editora Egéria Ltda. – 1979
wpid-img-20140829-wa0001.jpgColaboração do Emin∴ Ir∴ Valter Batista